No terceiro volume de “História da Filosofia Ocidental”, do Russell, o primeiro parágrafo do capítulo sobre Leibniz é o seguinte:
LEIBNIZ (1646-1716) foi um dos intelectos supremos de todos os tempos, mas, como criatura humana, não foi admirável. Tinha, é certo, as virtudes que gostaríamos de encontrar numa informação acerca de um empregado em perspectiva: era diligente, econômico, comedido e honrado em questões de dinheiro. Mas era inteiramente destituído das virtudes filosóficas superiores que são tão notáveis em Spinoza. Seu melhor pensamento não era apropriado para que conseguisse popularidade, e deixou os papéis em que o anotava sem publicar, em sua mesa de trabalho. O que publicou era destinado a conquistar a aprovação de príncipes e princesas. O resultado disso é que há dois sistemas de filosofia que podem ser considerados como representativos de Leibniz: um, que segundo ele proclamou, era otimista, ortodoxo, fantástico e superficial; o outro, que foi lentamente desenterrado de seus manuscritos por editores bastante recentes, era profundo, coerente, grandemente spinozista e assombrosamente lógico. Foi o Leibniz popular quem inventou a doutrina de que este é o melhor de todos os mundos possíves (a que F. H. Bradley acrescentou o comentário sardônico: “e tudo nele é um mal necessário”); foi este Leibniz que Voltaire caricaturou como o Doutor Pangloss. Seria anti-histórico ignorar-se este Leibniz, mas o outro tem uma importância filosófica muitíssimo maior.
Não seria eu mesmo se não fizesse uma comparação cretina aqui de vez em quando. Sim, é chegada a hora, vou comparar a obra filosófica de Leibniz à musical de Robert Smith e sua trupe: os The Cure. Prepare o seu estômago.
Conheci-os através de uma relação não salutar, por meio de uma pessoa cretina que eu, agora, preferia nunca ter conhecido mas que pelo menos rendeu esse fruto. De qualquer forma eles não merecem associação alguma à ela. Tinha birra porque imaginava que tudo deles estava associado a chatices darks do pós-punk, que é um rótulo musical que sempre me deu um pouco de asco e aversão (i.é. post-punk+gótico/dark etc), aliás não é a toa que recente e surpreendentemente descobri que a banda que eu considerava icônica dessa coisa toda, o Sisters of Mercy, se define primariamente como uma banda de rock, e só. Sinto vergonha alheia quando te vejo, afrogótico, e até seus ídolos compartilham esse sentimento.
Antes do The Head on the Door o Cure não era uma banda de rock, carregava a bandeira (e o estigma) de um movimento particularmente modorrento e ah, os discos também são incrivelmente chatos e inaudíveis. Esse álbum marcou o ponto crítico (!) onde eles deixaram de ser apenas mais uma banda, como estamos cansados de ver acontecer com uns e outros aí conforme o movimento da maré das tendências (!!!!).
Então tal qual Russell (<3) brilhantemente expôs, assim como houveram dois Leibniz (Leibnï? Leibinizsses?) existem dois The Cure, cuja separação ocorre não somente em “bom e ruim” — ou “ruim e bom”, primando pela exatidão cronólogica — mas sim em “para princesas darks e para gente de verdade” onde aproveito de liberdade poética nessa inter net onde a opinião de cada um tem grande valor (para si próprio) para definir este último grupo da seguinte: gente que, em se tratando de música, bem, se importa mais com música do que com imagem.
Mas ao mesmo tempo que há um paralelo, BAM: contradição! De uma maneira simples: o The Cure começou a fazer música de uma maneira muito melhor depois que começou a vender mais. Ou começou a fazer música boa para vender mais, isso não importa.
Obrigado Robert Smith, mesmo você e o Moz tendo rusguinhas. Amo vocês tudo.