O Augusto’s Blog of Incompleteness

21 de fevereiro de 1925

Posted in worthy by Augusto on June 30, 2009

De Martin Heidegger para Hannah Arendt

21 de fevereiro de 1925

Cara Hannah!

Por que será que o amor é imensamente mais rico do que qualquer outra possibilidade humana? Por que se mostra, aos que são tocados por ele, como um doce fardo? Porque nos transformamos naquilo que amamos sem deixarmos de ser nós mesmos. Gostaríamos então de agradecer à pessoa amada e não encontramos nada que seja suficiente para tanto.

Só podemos agradecer através de nós mesmos. O amor transforma o agradecimento em fidelidade para conosco e em crença incondicional no outro. Dessa forma, o amor intensifica constantemente o seu segredo mais peculiar.

A proximidade implica aqui a maior distância diante do outro. Essa distância não deixa nada desaparecer, mas nos lança ao seio da simples presença de uma revelação transparente, apesar de incompreensível. O coração nunca está em condições de dominar o despontar repentino do outro em nossa vida. Um destino humano entrega-se a um destino humano, e o serviço do amor puro é manter desperta essa entrega exatamente como no primeiro dia.

É vão tentar adivinhar o que teria acontecido se você tivesse me encontrado no seu décimo terceiro aniversário ou se isso só tivesse acontecido uma década depois. Não! Foi agora que tudo aconteceu, no momento em que sua existência começa a preparar-se, silenciosamente, para a vida de mulher. No momento em que você reúne em si mesma pressentimento, saudade, florescimento, sorriso: seu imperdível tempo de menina. Tudo isso deve funcionar como a fonte do bem, da crença, da beleza, da eterna disposição feminina para dar-se.

E que posso fazer em relação a esse instante?

Estar atento para que nada se quebre em você; para que se apure o que o seu passado contém de peso e sofrimento; para que ceda o que há de alheio e derivado.

As possibilidades da essência feminina à sua volta são tão diversas do que a “estudante” acredita e muito mais positivas do que ela imagina. A crítica vazia deve dissipar-se e a negação arrogante retroceder.

Enquanto o questionar masculino ensina veneração à simples entrega, a ocupação unilateral grassa mundo afora em meio à totalidade originária do ser feminino.

Curiosidade, bisbilhotice e vaidades estudantis não precisam ser eliminadas. Apenas a mulher, tal como é, pode dar nobreza à vida espiritual livre.

Quando o próximo semestre chegar, teremos um novo maio. O lilás voltará a crescer nos velhos muros, as flores pairarão nos jardins ocultos e você passará em seu perfumado vestido pelo velho portão. Noites de verão entrarão em seu quarto e ressoarão em sua jovem alma a serenidade silenciosa de nossa vida. Rapidamente despertarão as flores colhidas por sua adoráveis mãos e o musgo no fundo do vale, através do qual caminham os seus sonhos venturosos.

Em pouco tempo não estarei mais cumprimentando a montanha em passeios solitários; a montanha, cuja quietude rochosa um dia a encontrará; a montanha, em cujas linhas se dará o retorno do conteúdo de sua essência. Mas quero buscar a face da montanha, para do pico mais íngreme do precipício olhar sua profundidade quieta.

Seu

M.

  • Hannah Arendt and Martin Heidegger. Letters, 1925–1975, Ed. Ursula Ludz, translated Andrew Shields (New York: Harcourt, 2004).
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