O Augusto’s Blog of Incompleteness

Made in China: outubro de 2003

Posted in worthy by Augusto on October 6, 2009

Dave estava — e sua vida inteira passava diante de seus olhos. Não as partes profundas ou significativas — o amor de sua mãe, o nascimento de Carl, o recebimento do distintivo, uma metida inesquecível — , mas as prosaicas: o jato trêmulo de um leite longa vida; filas de caixa eletrônico; o display de doces numa videolocadora; um programa de tevê sobre os canais holandeses; mobília empenada empilhada diante da minúscula casinha operária em Erith; a “amostra” de sujeira numa parede de hospital; a correia solta em sua mobilete quando era um Menino do Conhecimento; a plaquinha inscrita com o nome JOHNCKHEERE na carroceria de um ônibus vibrando diante do semáforo; a rotatória de Hammersmith; uma telemensagem dizendo-lhe que ganhara um prêmio; uma bola amassada de papel alumínio — mas, mais do que tudo, os passageiros. Os passageiros, a infinita sucessão de passageiros — seus rostos agrupados no espelho: homens, mulheres, velhos, jovens, brancos, pardos, amarelos, negros (embora estes, forçoso era reconhecer, muito menos); olhos exaustos, hesitantes, entediados, furiosos, distorcidos de risadas, fechados num amasso cala-boca; as peles esticadas e flácidas, vincadas e marcadas; bocas fazendo bico, fechadas, entreabertas, pieguice amarga em seus dentes teimosos. Os passageiros, cutucando o nariz, esfregando os olhos e lançando-lhe espiadelas condescendentes, confiantes em sua própria pequena parcela de Conhecimento, qe ele, resmungando, era forçado a extrair: Praonde, ch’fia? Praonde, bein? Praonde…? Praonde…? Praonde…?

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